Aos cinco anos, Giovanna Blasi criou o que a família acreditava, na época, ser apenas uma amiga imaginária. Com o tempo, outros “personagens” foram surgindo dentro da cabeça da jovem. “Falei com a minha mãe na época, mas parecia ser coisa de criança. Eu também acreditava que eram apenas personagens. Não tinha ideia que, na verdade, eram identidades”, conta ela, em conversa com Marie Claire.
Giovanna foi diagnosticada, há 11 meses, com Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), e passou a maior parte da vida sem entender exatamente o que acontecia na sua cabeça. “O TDI nasce do estresse pós-traumático. Na infância, sofri violências físicas, o que acarretou em um trauma, e a primeira identidade foi a Momô. Na época, ela tinha a mesma idade que eu: cinco anos. Conforme o tempo foi passando, sofri outros traumas, e quando isso acontecia, criava novas identidades. Era o jeito que meu cérebro tinha encontrado de me fazer sofrer menos o impacto do que eu passava. Na hora da dor, eu dissociava.”
Segundo a psiquiatra Dra Bianca Schwab, diretora e secretária geral da Associação Catarinense de Psiquiatria (ACP), “as causas exatas do transtorno dissociativo de identidade não são totalmente compreendidas. No entanto, há uma relação importante com eventos traumáticos na infância, como abuso físico, sexual ou emocional. O transtorno pode ser uma forma de defesa do indivíduo para lidar com o trauma, separando as experiências e memórias dolorosas em diferentes identidades. Outros fatores, como vulnerabilidade genética, também podem desempenhar um papel na predisposição para o desenvolvimento do transtorno dissociativo de identidade”, explica.
Já o Dr. Agamenon Honório, psiquiatra e médico acupunturista, define o transtorno: “Ele é identificado como um transtorno mental caracterizado por múltiplas personalidades, quando a pessoa se comporta como se fosse duas ou mais pessoas diferentes, com pensamentos, memória e sentimentos ou ações variadas.”
No caso de Giovanna, são 18 identidades, contando com ela própria, cada uma com personalidades, idades e jeitos completamente variados. “Minha mãe sempre dizia que eu mudava muito, de uma hora para outra, como se fosse outra pessoa de repente. Também sempre fui muito influenciada por elas no co-front. E o que significa isso? Elas não estão no meu corpo, mas me influenciam em algumas atitudes, até minhas vestimentas, meus trejeitos.”
Assim que completou 17, a influenciadora notou que não tinha muitas memórias do ensino médio. Isso acontece porque, quando uma identidade assume o front, Giovanna tem amnésia e não se lembra em detalhes de suas ações até estar no comando novamente. “De início, pensei que tinha TDAH, em seguida, desconfiei de esquizofrenia. Depois, pensei que poderia ser transtorno de personalidade histriônica, onde a pessoa sente a necessidade de chamar a atenção, mas nada disso foi diagnosticado.”
Ao entrar na faculdade de psicologia, ela passou a ter ainda mais crises de troca. “Tinha muitas crises de dissociação, chegando ao ponto de sair da consciência às 9h da manhã e só voltar ao front às 22h. Por causa da amnésia que acontece nas trocas, me atrasava para o trabalho, porque me perdia no caminho, não sabia exatamente o que estava fazendo. Lá, as meninas diziam que, às vezes, eu agia como uma criança. Só me toquei que era tão grave quando a minha gerente disse: ‘ Você precisa se cuidar’. O meu namorado também reclamava bastante das minhas mudanças, então meus amigos fizeram um grupo no WhatsApp chamado ‘SOS Giovanna’, o que acabou se tornando a minha rede de apoio”.
Assim que contou para a mãe que precisava de ajuda, Giovanna começou o acompanhamento com a psicóloga e psiquiatra. O diagnóstico demorou anos e a profissional só chegou a uma conclusão ao notar as trocas durante as sessões. “Os critérios diagnósticos exigem a presença de duas ou mais identidades distintas, juntamente com lacunas recorrentes na recordação de eventos cotidianos e informações importantes da vida pessoal. É fundamental que um psiquiatra realize uma avaliação cuidadosa e detalhada, muitas vezes necessitando de entrevista também com familiares para fechar o diagnóstico corretamente”, diz Bianca Schwab.
O desafio para chegar ao diagnóstico se dá pela falta de pesquisa sobre o transtorno, em especial no Brasil. “Este transtorno foi descrito anteriormente como transtornos de múltiplas personalidades e adquiriu interpretações variadas historicamente falando, indo desde a possessão demoníaca até o diagnóstico de histeria e múltiplas personalidades. Há controvérsias teóricas e suas implicações clínicas e forenses talvez explique a falta de pesquisa neste campo”, diz o Dr. Agamenon Honório.
